Renato Sant'Ana | Oxidação da Tabela Periódica

Texto Crítico:  Hugo Moss

A Expressão do Renato Sant’Ana

 

"Nosso método precisa ser compreendido pelo intelecto, mas não aplicado através do intelecto." Michael Chekhov escreveu isto sobre a arte de atuar no palco, mas sua colocação é profunda e pode ser compreendida no contexto de qualquer trabalho de criação artística. Existe um lugar no processo criativo onde as vivências se mesclam e, na essência da experiência corporal, não importa o que está sendo criado: uma música, pintura, dança ou qualquer outro tipo de poesia. É a experiência de concentração e de transformação pessoal.

 

Nas artes plásticas temos agora uma produção grande e barulhenta feita pelo intelecto para o intelecto e, hoje em dia, arte que não tem um conceito facilmente resumido, mastigado e digerido, praticamente sente a necessidade de pedir desculpas ao se apresentar – cada vez mais timidamente – no todo-poderoso Mercado. Mas arte criada essencialmente pelo intelecto sempre se inclinará para o estereótipo, e arte criada de alguma forma a partir da vivência física do artista no mundo revelará – naturalmente e sem maiores esforços – os arquétipos que residem nas profundezas do nosso ser. O gesto do ser humano estará presente na sua essência, seja qual for sua expressão.

 

Considero este gesto uma necessidade para a vida saudável de arte, embora certamente não para o mercado de arte. E, convenhamos, temos hoje um Mercado bem mais saudável do que a arte que o sustenta.

 

Eu tenho a impressão de que se uma obra pode ser intelectualmente descrita de uma maneira tão completa que o esforço de sair de casa para vê-la fique praticamente supérfluo, dificilmente será algo com abrangência muito ampla. Se eu descrever um enorme tanque de vidro, de uns cinco metros de cumprimento por dois de altura, com seus cantos horizontais e verticais pintados de branco, contendo um tubarão-tigre morto “nadando” de boca aberta em formaldeído esverdeado, o que você ganhará em termos de vivência artística ao depois ser defrontado com The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living, de Damien Hirst, é discutível. Espanto, talvez, pela engenharia em si. Admiração pela coragem de bolar um objeto tão surpreendente, e talvez tente encontrar algum sentido na obra que justificasse seu título bombástico. Mas nenhuma vivência mais profunda, porque terá entendido grande parte do que a obra tem a oferecer, antes.

 

É uma obra que, como milhares de outras, pode ser explicada verbalmente ou por escrito. Ela pode ser imaginada com bastante precisão a partir de uma descrição simples, o que significa uma grande limitação, embora é arte que críticos, curadores e os que sustentam e alimentam o Mercado adoram. É sexy no extremo. Mas, no fundo, a reação da maioria, ao ver esta obra depois de ter lido a descrição acima, e mesmo adorando o que vê, dificilmente será algo mais profundo do que a expressão: “Ah, tá. É isso.” No corpo será um momento de relativa contração, enquanto o intelecto vai assimilando o que aquilo tem de extraordinário. Um vai achar o artista corajoso, outro cara-de-pau, enquanto o título é como o horóscopo no jornal: encontrará sentido quem estiver disposto.

 

Agora, se eu tentar descrever uma obra importante que não seja principalmente conceitual, provavelmente terminarei com as palavras: “...só vendo.” As Costas I a IV de Matisse, uma pintura de Lucian Freud, uma obra de Arman ou Giacometti, ou uma elipse gigante de Richard Serra – por mais completa e criativa seja a minha descrição, a sua compreensão jamais chegará aos pés da experiência de ser defrontado com a obra em si. Ao ver uma delas pela primeira vez, sua reação será de deslumbramento, uma vivência muito clara, uma grande expansão, na imaginação e no coração. São obras que sentirá como vibração no corpo, como música. Você pode depois até decidir se gostou ou não, mas elas demandam e provocam uma reação vivida na experiência do momento, e nenhuma descrição ou discussão verbal substituirá aquilo.

 

Arte conceitual pode ser muito inteligente e muito divertida, mas tem esta tendência de nascer estereotipada. Ela provoca não uma faísca de deslumbramento vivida no corpo, mas um reflexo intelectual de interesse e raciocínio. Quanto mais conceitual, mais descritível a obra, e menor a necessidade de vê-la. E, da minha parte, diria mais: quanto mais conceitual, menor a necessidade de realizá-la, porque a obra é fatalmente inferior ao conceito (às vezes brilhante) que a gerou.

 

O Mercado não tem a mesma visão, eu sei, e valoriza muito a arte principalmente conceitual. O que ele não consegue mudar é seu valor como arte. O mundo é um mistério mesmo, mas o tempo passa.

 

As pinturas sobre lona e sobre policarbonato e acrílico do Renato Sant’Ana são gesto puro: explosões a serviço da organização da tinta, das cores, formas, linhas e sombras numa expressão muito imediata, pessoal e destemida. Esta descrição, além de não lhe ajudar muito a visualizá-las, já é uma reação pessoal minha. Eu não sei se o artista concordaria com ela, e não garanto que você “verá” a mesma coisa. Enfim...só vendo. Se você tiver outra reação, será tão real e válida quanto a minha, e embora exista um possível discurso de uma linhagem descendo por Pollock, de Kooning e outros (Jorge Guinle, naturalmente), nada disso ajudará um pingo a lidar com a vivência de ser defrontado com uma das obras. Uma coisa eu garanto: elas falam diretamente ao corpo e à sua experiência do momento presente, e são apreciadas sem necessidade da participação do intelecto. Mais tarde, no bar da esquina, longe das obras, podemos falar de expressionismo abstrato e pintura gestual e quantas outras referências você quiser.

 

Adoro passar o tempo assim, e talvez neste belo papo sentiremos a tentação de dividir as obras do Renato Sant’Ana em duas ou três categorias, as telas pintadas, as composições com tinta derramada em poças, e os objetos variados, cilindros e outros vasilhames de movimento colorido, mas pessoalmente não vejo grande diferença na sua essência, fora o material físico do suporte. Todas são expressões desta necessidade urgente e imediata do artista de organizar seu momento e expressar aquilo. E seu momento é sempre um gesto, porque no fundo toda vivência essencial neste mundo é corporal, com sua infinita variedade de qualidades.

 

Renato está se expressando assim há pelo menos de 20 anos, e nos últimos dez, que eu o acompanho de perto, tem produzido uma série cada vez mais sólida, ampla e pessoal de obras. Se você chegar ao seu ateliê hoje (o que recomendo muito) vai encontrar um ambiente transbordando com gestos, cores e vida pura, e terá que tomar um momento para respirar e descobrir seu caminho para lidar com aquilo. Enquanto o mundo lá em baixo, no calor do Centro do Rio de Janeiro e por aí afora, vem avançando no seu turbilhão, nestes anos todos o Renato está lá no alto do Morro da Conceição, pairando acima de tudo e de todos, talvez um pouco fora do nosso alcance, concentrado cada vez mais na sua própria expressão. O ateliê dele é uma incansável e hoje invencível fonte brotando gesto após gesto.

 

É uma arte que provoca uma atenção imediata. Ação que gera reação. Ele é um bicho raro no universo das artes plásticas de hoje: uma voz consistente, profunda, pessoal e intensamente independente.

 

Renato Sant’Ana até brinca com arte conceitual. Afinal, como já falamos, ela pode ser muito divertida, e ele adora brincar. Outro dia me mostrou uma lâmpada comum, em pé, sustentada por um arame de garrafa de champanha abraçando sua rosca, e em cima uma pequena vela gasta pela metade, com cera derretida descendo a superfície do vidro. “Você abre a champanha, apaga a luz e acende a vela,” disse ele. Delícia.

 

Arte conceitual é o que Renato faz nas horas vagas. E se você realmente visitar o ateliê dele, provavelmente verá esta pequena obra num canto e pensará: “Ah, tá. Aquele objeto do final daquele texto que li.” Mas ao ler isto você já entendeu tudo que tem para entender sobre aquilo. É uma bela brincadeira e talvez você vá sorrir. Eu sorri. Duvido muito que o artista vá, um dia, expô-la.

 

© 2011 Hugo Moss

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Renato Ass
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Cleide e Renato Baixa
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