Osmar Dillon | Dois Tempos

Texto Crítico: Fernando Cocchiarale

Dois tempos reúne cerca de vinte e seis poemas-objeto produzidos por Osmar Dillon na década de setenta e quinze de suas pinturas dos anos noventa. A produção desse artista remonta, entretanto, ao final dos anos cinqüenta, quando buscou integrar duas frentes de criação que antes praticava separadamente, a poesia e a pintura

A síntese das instâncias semântica, formal e lúdica (concebida para o espectador experimentar seu próprio corpo e ampliar o autoconhecimento pela participação direta), aproximou-o do movimento neoconcreto ao qual terminou por ligar-se em 1960.

Em texto crítico sobre a exposição desse artista na Galeria de Arte Ipanema publicado em 1972, Roberto Pontual considera que a obra de Dillon caracteriza-se pela produção de "uma poesia de permanente fundamento plástico, como se as palavras se destinassem a pintura (...) com a poesia perdendo palavras, mas não a referência ao mundo exterior, e a pintura abandonando a figuração explícita, mas não o símbolo".

Há que estabelecer também uma distinção entre a obra de Osmar Dillon e as questões da arte conceitual, que influenciaram tanto a arte internacional, quanto a arte brasileira da época. Se esta última encontrou na palavra (conceito) um meio de desmaterializar o espaço plástico-formal legado pelo modernismo, a poesia, tanto concreta, quanto neoconcreta, procurou, num caminho inverso, explorar suas possibilidades gráficas e plásticas (espaço).

Dentre os poetas objetuais neoconcretos (Ferreira Gullar, Claudio Mello e Souza e Roberto Pontual) Osmar é o único que segue investigando as possibilidades poéticas da espacialização formalizada das palavras. Entretanto, apesar de manter-se no rumo dessas investigações iniciais, a produção de Dillon diversificou-se ao longo dos anos. O lançamento de novos materiais, como o acrílico (assimilado por seus poemas-objeto do princípio dos anos 70), a emergência de novas tecnologias eletrônicas (recentemente experimentadas com os mesmos propósitos), e a atual retomada da pintura pelo artista são inflexões de uma obra marcada pelo construtivismo e por seus desdobramentos no Brasil e, particularmente, no Rio de Janeiro.

O teor geométrico das pinturas recentes de Dillon não resulta, portanto, das preocupações formais e seriais que marcaram, por exemplo, o concretismo paulistano, mas da busca de espaços cromaticamente construídos. É, nesse sentido, herdeiro direto da experiência neoconcreta ( que rompeu com a hierarquia entre forma, cor e fundo, em pról do espaço, tornando-os equivalentes) à qual o artista aderiu no começo de sua trajetória.

As cores aqui não são chapadas, nem tampouco matizadas por meio de pinceladas livres, gestuais ou matéricas. Sutilmente granuladas elas vibram uniformes configurando áreas geométricas cuja sequência na superfície do quadro é quase sempre determinada por afinidades tonais, ainda que alguns trabalhos explorem contrastes mais intensos.

Essas pinturas compartilham afinidades espaciais evidentes com seus poemas-objeto. Ambos extraem da simetria o sentido de ordem a partir do qual a obra de Osmar Dillon é feita, mas que ela própria simultaneamente subverte, tanto por meio da palavra, quanto através da cor.

Fernando Cocchiarale