José Tannuri | Por uma condição mais humana de mundo

Texto Crítico: Felipe Scovino

As três séries de trabalhos de José Tannuri que aqui nos cercam têm o impedimento como símbolo. É na alusão às cercas que suas obras criam um território da diferença: exibem a forma equivocada, fria e distante que mantemos com o mundo. Particularmente na série Fronteiras, temos um diálogo intenso com certo “mobiliário urbano” brasileiro surgido no fim da década de 1980 (os muros adornados com cacos de vidro em seus topos) e, consequentemente, com os sintomas de medo e violência que assolam a população. Estas obras parecem nos perguntar o que fizemos com o nosso espaço urbano e o que nos tornamos. Margeando o comentário de que a arte cada vez mais se infiltra na vida e vice-versa, as obras desta exposição fazem parte de um conjunto de experiências artísticas que apontam o aumento da desconfiança em relação ao “outro”, sintoma que tem sido cada vez mais frequente na contemporaneidade.

 

Não estamos mais falando de estranhamento, mas de pânico. Atingimos um grau mais elevado nessa (negativa de uma) relação humana. É na condição de ser ruidoso que o trabalho de Tannuri nos alerta para a percepção de uma temporalidade que se impõe cada vez mais como sinônimo de ganância e de individualidade. É curioso como o termo “risco” é empregado nestas três séries. É o meio ou linguagem de ambos, porque está presente na linha do desenho e na ocupação do espaço pictórico, ao mesmo tempo em que constitui o tema (por um viés político) que o artista quer explicitar. É um risco que fica entre ser visibilidade de um mundo segregador em constante crise e ser um instrumento poético pelo qual o artista, de certo modo (e ambiguamente), suaviza e humaniza essa percepção. Percebemos que, minimamente, há uma utopia pairando sob estes trabalhos. Por mais violentos que pareçam ser, há uma demonstração de interromper uma visão trágica e ordinária de mundo.

 

Se, em Fronteiras, a sobreposição de desenhos sobre a fotografia, tendo a cerca como símbolo, transmite uma textura de pele à obra, em Humanos os vultos e a escrita se somam ao óxido de ferro entranhado na tela, que condiciona um novo índice de temporalidade e alusão ao corpo – isto é, a pintura nunca terá a mesma condição material porque a oxidação criará uma passagem de tempo morosa e intermitente. Ademais, é no símbolo de uma alusão à presença (de corpo, de tempo) que esta obra se funda.

 

Na terceira série – Um ritual de passagem para outro lugar que, na obra-trajeto do artista, atua como um desdobramento das anteriores – nos deparamos com autorretratos (conforme o próprio artista salienta em seu discurso). Porém somos enganados, a todo momento, sobre aquela ideia que se faz deles: não há uma imagem clara do artista – até porque ora é a figura de um homem, ora a de uma mulher e, algumas vezes, a de um ser no qual torna-se indefinível o seu gênero – mas um espelhamento daquela ideia de “indivíduo”, que foi construída nas séries anteriormente realizadas, como vítima de uma espécie de “aprisionamento”, solitário, cabisbaixo, impotente.

 

É importante afirmar que essa pele ou corporeidade que Tannuri constrói se assemelha a uma ferida. Nesse momento, se coloca a tal ambiguidade citada. O artista, tanto por meio dos símbolos e metáforas que opera como na escolha do material que faz, apresenta um mundo que se quer mais humano, ao mesmo tempo em que não nega o seu caráter panfletário de gritar, em altos brados, a condição perversa que nós próprios construímos para o nosso tempo.