José Tannuri | Um convite para o abismo

Texto crítico e curadoria : Luiza Interlenghi

 

Entre indícios de espaços urbanos desabitados e cores chapadas sobre páginas de jornal, José Tannuri investiga a borda que contorna os abismos, aqueles que
construímos. Com elementos silenciosos, graficamente potentes, o artista encontra uma inesperada via de acesso para o sublime. Há, em diversas dessas pinturas sobre jornal, trampolins, plataformas projetadas sobre o vazio, além de outras arquiteturas ambivalentes: esquemas que sugerem vistas aéreas de construções padronizadas, alinhadas à margem de uma área sombria. Por entre anúncios classificados, o azul
abre espaços de passagem, recorta obscuros horizontes. Tannuri inicia sua produção nos anos 1990, em pleno curso da globalização e da revolução digital. Desde 2003, quando realizou a instalação Muros no Centro Cultural Sérgio Porto, aponta criticamente a dominação e o homogêneo. Manipula, então, o jornal literal e simbolicamente. Ergue empilhamentos, muradas. Recolhe edições internacionais, nas quais intervém com a pintura e a impressão de linhas divisórias, cercas e fronteiras. As páginas, diz o artista, são como “território de países, limites de suas fronteiras físicas, culturais, sociais e econômicas”. Se em trabalhos anteriores, como Vazios (2005) no Paço Imperial, a arquitetura da galeria é transfigurada por volumes monumentais de papelão, aqui os pequenos e médios formatos condensam a imensidão.  Já sob o domínio das mídias sociais, as páginas impressas, que pouco manipulamos, assumem outros sentidos. Na série Abismos (2016-2017), aqui apresentada, as fronteiras são íntimas, expressam dilemas da existência. Espaços aparentemente vazios, pois que não há a presença direta do corpo, sinalizam a solidão dos que vivem entre muitos. O azul intenso e profundo, ora é fosso ora dissimulada correnteza, que abre margens vizinhas às próprias bordas do papel. Cada horizonte é desalinhado por seu próprio abismo. O artista deixa entrever o texto padronizado, até que se reduza a uma trama que antecede a imagem e o próprio olhar. A tudo alinha e demarca. Em quatro instigantes trabalhos verticais, porém, o negro, o branco e o azul vencem essa ordem: as linhas se formam no encontro de grandes áreas de cor. Desenham paisagens simples, mas arrebatadoras. Cada cor estabelece, na pintura, um sentimento da matéria: o branco a leveza aberta do ar, o negro a gravidade misteriosa da rocha e o azul a mediação líquida entre ambos. Ao escavar o sentido espiritual da cor (numa
poética humanista, como no primeiro modernismo), Tannuri resiste à desumanização globalizada e ao desenraizar do indivíduo nas sociedades contemporâneas. Ao menos desde o romantismo alemão, o inquieto e solitário olhar moderno tateia o sublime. O indivíduo observa sua própria finitude e, como na pintura de
Caspar Friedrich, vislumbra em paisagens extremas a própria fragilidade humana. Nas xilogravuras do Pós-guerra de Oswald Goeldi, pescadores observam a imensidão entre céu e mar. Essa ronda continua a engajar poéticas contemporâneas, como empinturas de Vitor Arruda que tratam da queda em sedutora escuridão. Tannuri marca uma posição singular no limite extremo desta borda, de onde o trampolim é lançado – um convite para o abismo. Entre imagem e texto vivemos. Nos últimos trabalhos, realizados em pequenos formatos, há um amarelo, discretamente solar. Além da luminosidade diurna, o nome dessa cor é como um trampolim que permite o salto da imagem para o texto. Quando partido, forma duas palavras que se complementam: o infinitivo amar e o vínculo que
resulta da sua conjugação, elo. De volta à imagem, observamos um jogo de simetrias, que não configura espelhamento, mas semelhança, encaixe, continuidade: dois trampolins e dois vazios que formam um só. Eventualmente, uma faixa, um elo, interliga estes territórios que, se observam, a constatar posições equivalentes, miradas compartilhadas, diante do abismo. A identificação do jornal com a ordem social contemporânea se inscreve, nesta série, como estrutura que impõe o homogêneo e seu sentimento colateral de vazio.  Mas, sussurram os trampolins: é possível saltar. Sua presença, “entrada e saída para um mundo diferente deste que vivemos”, diz o artista, “torna o abismo real e possível mergulhar”. Tannuri nos leva a mirar horizontes, essa linha que indica o infinito e nos dá a medida do temporário agora. Não será a possibilidade do salto, que resgata a
cada instante a potência do sublime?

 

 

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Patricia Costa e Luiza Interlenghi102-5021
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