Guel Silveira | Faz da Abstração Sua Linguagem

Curadoria e Texto Crítico: Geraldo Edson de Andrade

É importante que um pintor como o baiano Guel Silveira tenha recebido em casa os seus primeiros ensinamentos artísticos. Explico: filho do pintor sergipano Jenner Augusto, um dos ícones da arte moderna de Sergipe e da Bahia, foi na convivência paterna e na de outros conhecidos nomes da arte baiana, que ele iniciou seu perfil futuro como artista.

Importante saber também que Guel, ao contrário de outros descendentes de pintores renomados, desde o começo procurou abrir seu caminho, sem querer pegar carona na linguagem paterna. O que seria até justificável não fosse ele pintor que já surgiu desconstruindo sua origem. Principalmente querendo furar o bloqueio de ser jovem ao meio de artistas veteranos, como no seu caso específico em relação a pintores historicamente ligados à arte baiana.  

Sintomaticamente, ele começou a expor numa coletiva realizada em São Paulo, em 1974. Estava com 19 anos de idade.

Como todo jovem desafiador que sente a vocação desde tenra idade, Guel optou por trilha oposta ao pai, ou seja, quis dominar a técnica dentro de linguagem próxima à sua personalidade, Não é à toa que seus primeiros trabalhos oscilassem entre a figuração satírica e, posteriomente, a abstração, às vezes tendendo para um regionalismo por causa da luminosidade da cor, mas sem cair no folclórico da proposta, o que seria compreensível uma vez que a Bahia, além da exuberante paisagem, é uma das regiões de maior riqueza em se tratando de cultura popular.

Duas coisas, porém, o pintor baiano conseguiu na sua jornada dentro da pintura. A primeira, evidentemente, saber dominar seu ofício. A segunda, consequência do aprendizado, criar um tipo de abstração, sua proposta atual, com formas espontâneas ou geométricas e cores filtradas daquelas que lhes são mais afins e com elas compor gramática de acentuado interesse cromático.

A linguagem abstrata não é tão fácil como costumam afirmar os diletantes. Uma composição abstratizante pode conter, sim, elementos reais quando transfigurados pela sensibilidade do artista que nela expressa não somente sua catarse interior, nela inserida memória e afetividade. Há, pois, sensível ligação entre formas e cores com sentimento e emoção norteando as intenções de Guel nas suas mais recentes pinturas.

 Cada uma de suas telas nos leva (ou o leva) a passar a limpo tempos passados tão presentes, seja pelo simbolismo que representa, como pela harmonia que transmite. Não se trata de evocação porque Guel tem sempre olhar no presente e outro no futuro. As formas de sua pintura procuram a cor no sentido de integração, ao mesmo tempo incorpora díspares elementos, tais quais relevos, vazados, pinceladas ágeis tudo em função do resultado final.

Nesse particular, o universo plástico de Guel Silveira é muito rico de sugestões e conteúdo, capaz de provocar o imediato interesse do público. Antes de tudo é a sua maneira de ver o mundo e poder exprimir emoções que lhes são particularmente gratas.

Mais do que nós, espectadores, porém, Guel Silveira reconhece que “a arte é a maneira de ver o mundo de uma sensibilidade intensa e curiosa, maneira que é própria de cada um de seus criadores, e intransferível” como acentua com acuidade o escritor argentino Ernesto Sabato.

 

Geraldo Edson de Andrade

Escritor, professor, Crítico de Arte, Presidente de Honra da Associação Brasileira de Críticos de Arte, ABCA - AICA